Por que um engenheiro de software se importa com ciência
A ciência é o sistema mais antigo para produzir conhecimento confiável. Ignorá-la é deixar o melhor design na mesa.
Me perguntam por que um engenheiro full stack que passa o dia em Next.js e TypeScript escreve sobre laboratórios, hipóteses e dados cardiovasculares. A resposta honesta é que eu nunca vi diferença. Ciência é um sistema. Recebe observações ruidosas como entrada, passa tudo por um processo com regras e produz conhecimento que precisa sobreviver ao contato com a realidade. É exatamente o que eu faço para viver, com entradas piores e prazos mais curtos.
O método é um padrão de projeto
Todo engenheiro já pratica uma versão degradada do método científico. Você vê um bug, forma um palpite sobre a causa, desenha uma mudança que provaria ou derrubaria o palpite, roda e olha o resultado. A diferença entre um júnior e um sênior é, na maior parte, a honestidade desse ciclo. O júnior muda três coisas ao mesmo tempo e declara vitória quando o erro some. O sênior muda uma coisa só, prevê o resultado antes de rodar e fica desconfiado quando a previsão erra na direção certa.
A ciência formalizou essa disciplina séculos antes de existir controle de versão. Grupo de controle, cegamento, pré-registro, replicação: cada um é uma contramedida contra um jeito específico de o ser humano enganar a si mesmo. Quando eu audito um sistema e encontro a falha que ninguém tinha visto, raramente é porque sei mais. É porque me recusei a aceitar uma explicação que não tinha sido testada.
Fiz três anos de Biomedicina e saí
Antes do software, passei três anos num curso de Biomedicina. Não terminei. Eu era melhor em ler um protocolo e perguntar por que o passo quatro vinha antes do cinco do que em executá-lo. O que ficou foi a forma do trabalho: o acúmulo lento e cuidadoso de evidência, o respeito pelo que você ainda não sabe e a frustração de ver boas perguntas morrerem porque as ferramentas em volta delas eram péssimas.
Essa frustração nunca passou. Em mais de 600 projetos, vi empresas ganharem software melhor a cada ano enquanto pesquisadores continuam trocando planilhas por e-mail e reconstruindo o mesmo pipeline em cada laboratório.
Meu pai era médico, e eu mal o conheci
Meu pai, Pedro Moretti Guedes, exerceu a medicina em São Paulo por mais de quarenta anos e atendia de graça quem não podia pagar. Eu o encontrei uma única vez, adolescente, por cerca de duas horas. Quase tudo o que sei sobre ele vem dos pacientes. É um jeito estranho de herdar uma vocação, pela memória dos outros, mas foi o que me coube.
Não virei médico. Virei alguém que constrói sistemas, e em algum momento percebi que as duas coisas não são tão distantes quanto parecem. Uma clínica é um sistema. Um diagnóstico é uma hipótese com ciclo de feedback. Quem cuida de um paciente e quem se importa se um pipeline é reprodutível estão tentando proteger a mesma coisa: uma decisão que vai afetar uma vida.
O que um engenheiro pode contribuir de verdade
Não vou descobrir um novo mecanismo de doença cardíaca. Clínicos e cientistas vão. O que eu posso fazer é o que sempre fiz: olhar o sistema em volta deles, achar onde ele perde informação em silêncio e construir as partes chatas e confiáveis que tornam as partes interessantes possíveis. Proveniência. Reprodutibilidade. Validação que não é uma fase no final. Interfaces em que o caminho honesto é o caminho fácil.
É por isso que a ELUCENIA existe, e por isso ela é global desde o início: uma cadeia médica e científica entre países e especialidades. Os princípios não são complicados: toda hipótese precisa de evidência, todo avanço precisa de validação científica, toda decisão precisa de um humano responsável. Isso é princípio de engenharia tanto quanto de ciência. Eu só tive a sorte de aprender pelos dois lados.
Me importar com ciência não é hobby. É o mesmo trabalho, apontado para as perguntas que mais importam.