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vida

A vida que me construiu.

Filho de um médico que só conheci aos quinze anos. Criado por sete mães. Trabalhando desde os nove. Esta é a história inteira, sem atalhos.

01

Um nome que eu não sabia que era meu

Eu me chamo Felipe Guedes. Sou filho de Pedro Moretti Guedes, médico do Campo Limpo, em São Paulo, conhecido até hoje por atender de graça quem não podia pagar. Sou sobrinho de Joaquim Guedes, um dos maiores arquitetos que este país produziu. E passei os primeiros quinze anos da minha vida sem saber de nada disso.

Meu pai não me conheceu porque não teve a chance. Minha mãe, Zilda, mulher simples, de família pobre, escolheu guardar segredo. Não pediu nada. Nem pensão, nem reconhecimento, nem uma conversa. Eu não julgo mais essa escolha. Levei anos para parar de julgar. Mas foi ela que decidiu, sem saber, que eu cresceria sem o homem de quem herdei a essência.

02

Sete mães

Eu tinha meses de vida quando minha mãe me deixou com uma senhora que cuidava de crianças. Perto do meu primeiro aniversário, essa mulher morreu dentro de casa. Quem descobriu foi Etelvina, tia de segundo grau da minha mãe, que passou para me visitar e encontrou três crianças e ninguém para cuidar delas.

Etelvina saiu procurando alguém. Encontrou Dilza. Dilza morava com o marido, Carlos, pedreiro, nos fundos de uma igreja no Parque Pirajussara, em Embu das Artes. O aluguel era pago com o trabalho na igreja. Eles tinham oito filhos e quase nenhum dinheiro. Mesmo assim, me adotaram. Dilza foi minha segunda mãe. Carlos, o primeiro homem que me chamou de filho.

Carlos morreu quando eu tinha cinco anos. Minha mãe apareceu, brigou, e me levou embora. Fui morar com Marilu, filha de Etelvina. Dos cinco aos oito, foi Marilu quem me criou. Depois vieram Creusa, Rosalina, Marileusa, alguns dias com a própria Zilda, e por fim Etelvina de novo. Sete mulheres. Sete casas. Cada uma me deu alguma coisa que ainda carrego. Nenhuma criança deveria precisar aprender a fazer mala tão cedo. Eu aprendi. E aprendi também que família é quem fica.

03

A carrocinha

Na casa de Creusa, no Jardim Casa Branca, eu tinha nove anos quando vi meu melhor amigo ser assassinado. Estávamos jogando bola na rua. Não vou descrever. Basta dizer que naquele dia eu entendi que a rua não era lugar de criança, e que se eu queria ficar vivo, precisava ter para onde ir.

Foi nessa época que comecei a trabalhar. Montei uma carrocinha de reciclado. Tinha orgulho dela, orgulho de verdade. Andava o bairro inteiro recolhendo papelão, latinha, o que tivesse valor, e o que eu ganhava entrava na casa de Creusa. Um dia, Seu Mário, marido de Etelvina, me viu na rua puxando a carrocinha. Ele contou para Marilu. Marilu falou com minha mãe. E eu troquei de casa mais uma vez.

04

A gráfica

Na casa de Etelvina, aos doze anos, comecei a trabalhar "de verdade". De segunda a segunda, na gráfica Arte Final, com Samuel, filho dela. Na primeira semana, Samuel me ensinou CorelDRAW e FlexiSIGN, o programa de corte de adesivo. Com duas semanas, eu já fazia a arte e cortava o adesivo, e deixava tudo pronto para ele aplicar nas placas e nas fachadas. Com um mês, eu aplicava as faixas sozinho, a olho, sem régua, e saía reto.

Durante quase um ano, o único trabalho do Samuel foi entregar. Eu, com doze anos, tocava uma gráfica inteira. Ele vivia prometendo um PlayStation 2. Era o meu sonho. Nunca chegou. Hoje, adulto, eu entendo que o que eu ganhei ali valia mais que qualquer console: eu absorvi a maneira dele de olhar para o que o cliente precisa antes de o cliente saber dizer. Até hoje, no primeiro contato com uma empresa, eu sei o que os sistemas dela precisam e onde vão quebrar. O primeiro passo disso foi dado numa gráfica em Embu das Artes.

Foi também ali que eu descobri como aprendo. Alguém me mostra uma vez. Eu observo, pergunto, tento, erro, tento de novo. Em duas semanas eu faço. Em um mês eu domino. Autodidata nunca significou aprender sozinho. Significou transformar cada pessoa generosa que cruzou meu caminho em uma escola.

05

A eletrônica

Com treze anos e pouco, Seu Mário percebeu que eu estava trabalhando demais e não estava indo à escola. Contou para Marilu. E Marilu decidiu me criar de novo. Fui morar com ela e com Val, o marido dela, e fui trabalhar na Gradualtec, a oficina de eletrônica do Val.

Televisores, micro-ondas, aparelhos de som, DVDs, fontes, placas, controles, pequenos motores. Val me ensinou a enxergar o circuito antes de tocar nele: onde a corrente entra, por onde sai, o que esquenta, o que estoura. Sem faculdade, sem curso, só vendo e fazendo. Aos quatorze eu consertava sozinho. Fiquei lá até os quinze. Foi quando a minha vida virou.

06

Dois candidatos e um exame

Marilu resolveu descobrir quem era meu pai. Havia dois candidatos. Ela foi atrás dos dois. Fizeram o exame de DNA. O resultado tinha um nome: Dr. Pedro Moretti Guedes.

Eu o vi pela primeira vez na clínica onde o exame foi feito, em São Paulo. Ele me cumprimentou. Eu mal entendia o que estava acontecendo. Na segunda vez, fui à clínica dele, no Campo Limpo. Sentei ao lado dele. Ele já enxergava pouco, estava debilitado, e mesmo assim ainda atendia, só pelo toque. As mãos sabiam o que os olhos não viam mais.

Meu pai conversou comigo. Falou de bondade. De como ele encarava a vida. Contou, rindo, que uma vez criou um jacaré nos fundos da clínica. Simples assim, um homem simplão. Me perguntou o que eu queria ser. Na ânsia de impressioná-lo, respondi que queria ser advogado, porque era um cargo bom e eu jamais poderia dizer médico; médico parecia de outro mundo para mim. Ele sorriu. Até hoje não sei se o agradei. Hoje eu o entendo.

Foram pouco mais de duas horas. No fim, ele me abraçou, chamou um táxi e me deu um chiclete Trident. Eu jamais vou esquecer. Não conheci meu pai. Mas sei que grande parte de mim, a minha essência, vem dele. Eu o amo mesmo sem ter tido a chance de aprender a amá-lo.

07

Três meses

Três meses depois daquele dia, eu estava trabalhando quando Marilu me chamou para conversar. Ela disse: "Há uma semana o seu pai faleceu, e a sua mãe só veio me contar hoje." Minha mãe soube pela tia Tita e preferiu não me dizer. Eu mal entendia o que era a morte, mas alguma coisa dentro de mim já sabia.

No mesmo dia, peguei uma mochila. Esperei Marilu ir para a loja, coloquei algumas peças de roupa dentro e fui embora. Consegui emprego em uma loja de autopeças de moto em Taboão da Serra e pedi o primeiro salário adiantado para alugar um canto. Vivi dois anos, até os dezessete, em uma casa de pouco mais de catorze metros quadrados. Um colchão, um micro-ondas, um cobertor, algumas roupas. Sem geladeira. Almoço era a marmita do trabalho. Janta era bolacha de água e sal.

Nunca deixei de trabalhar. Aos dezoito, saí da loja e fui fazer bico com o Val nos fins de semana, em eventos. Durante a semana, fui pintor e depois servente de pedreiro em uma construtora que reformava escolas no Taboão. Quem me levou foi Eli, meu irmão por parte de Dilza. Dos quinze aos vinte e cinco, eu segui um único caminho: trabalho.

No meio disso, fiz três anos de Biomedicina na FMU. A saúde voltou a bater na minha porta, como se meu pai estivesse me chamando. Não consegui terminar. O último ano exigia estágio integral não remunerado, e quem paga o próprio aluguel desde os quinze não tem essa opção. Tranquei. Dos quinze aos vinte e cinco fui um homem revoltado com a mãe e descrente da vida. Mas nunca fiz maldade a ninguém. Nunca usei drogas. Só trabalhei.

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Toledo

A virada começou em janeiro de 2018. Jusseli, amiga e mãe do meu amigo Luiz, tinha visto de perto como eu era. Com o Luiz, eu havia montado uma gráfica online. Eu fazia cem por cento de tudo e ainda assim aceitava dividir meio a meio. Jusseli viu isso, conhecia a minha história, e me fez um convite para mudar de vida. Ela sabia que eu dava conta.

Em fevereiro, a rota mudou. Luiz passou na UTFPR de Toledo, no Paraná, e me convidou para dividir apartamento com ele e com o Bruno. Eu não titubeei. Jusseli só pediu uma garantia: "Felipe, você garante que consegue emprego lá?" Consegui no primeiro dia.

Antes de viajar, eu já tinha entrado em contato com empresas da cidade. Assim conheci Marília, que tinha um espaço Herbalife. Ela me entrevistou e abriu uma vaga com uma condição: não podia pagar salário, mas pagava o almoço e me daria contatos para um emprego formal. Aceitei. E mesmo trabalhando por um prato de comida, eu dava ideias, fazia sempre mais do que o combinado, cuidava do site e dos sistemas, ajudava em tudo o que eu pudesse. Um mês depois, em agosto de 2018, entrei na Catalisa, a agência da cidade. Mateus, o dono, um cara aberto e de cabeça boa, me deu a oportunidade. Fiquei até dezembro.

09

A bicicleta

Em dezembro de 2018, eu precisava vender uma bicicleta para pagar a conta de luz. Vendi por duzentos reais. Quem comprou foi um casal muito querido, Melania e Bau. Junto com o dinheiro, eles me deram um panfleto: um convite para o culto dos jovens da Igreja Batista Renovada. Eu era ateu. Incrédulo com a vida. Cheguei no quarto e joguei o papel no lixo.

No sábado de manhã, peguei o lixo para levar para a lixeira grande da cozinha e, sem saber por quê, abri o papel de novo. Começou a bater uma pontada. Meu coração ardia para ir àquele culto, e eu não sabia explicar. Mandei mensagem para a Melania pelo Facebook: "Ei, como eu chego na igreja? Sou novo na cidade, não conheço quase nada." Ela respondeu que iriam me buscar em casa. E foram.

Levei o Gabriel, amigo da Catalisa. Sentei no último banco, na última fileira, para ter acesso rápido à saída. Mas quando sentei, alguma coisa me prendeu ali. Eu só chorava. Chorava e chorava. A palavra era para mim. Eu tinha passado por igrejas em várias das casas onde vivi, mas ali foi a primeira vez que senti Jesus Cristo tocar a minha alma. Aceitei a Cristo como meu salvador naquele dia. E tudo mudou para sempre.

10

A agência

Uma semana depois, Marília decidiu abrir a própria academia e quis, porque quis, que eu cuidasse do site, dos sistemas e de toda a tecnologia. Eu vi ali uma oportunidade de empreender. Saí da Catalisa e abri a Impact, minha primeira empresa de tecnologia, em Toledo. Pelos contatos que fiz no espaço onde trabalhei sem salário, Marília me recomendou ao Alan, da Planeta Modas, e assim veio meu primeiro contrato com a RPC e a RicTV para produção de comerciais.

Lançamos a academia em 12 de fevereiro de 2019. E naquele lançamento eu conheci a primeira funcionária da Marília, uma personal trainer chamada Natália. Em 14 de maio de 2019, começamos a nossa história como casal. Ela é minha esposa até hoje.

A agência ia bem. Clientes chegavam por indicação, as contas estavam no azul. Em setembro de 2019, resolvi investir e expandir: financiei quarenta e dois mil reais no banco e coloquei em sala, móveis, equipe, estrutura. Estava tudo indo bem. Até março de 2020.

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A pé

Lembro como se fosse hoje. Natália estava grávida da Beatriz. Uma gravidez de risco, com descolamento de placenta; ela não podia trabalhar, e todas as contas eram minhas. No dia em que o governador anunciou o fechamento do comércio, a primeira coisa que as lojas fizeram foi cancelar os contratos. Eu estava sentado quando o WhatsApp começou a pingar. E tudo o que chegava dizia a mesma coisa: "Felipe, vamos cancelar." "Não vou conseguir manter." "Vamos ter que fechar a loja." Minha empresa faliu ali, naquela tarde, na tela do telefone.

Desci do prédio da ACIT, em Toledo. Peguei a bicicleta, tirei o cadeado, andei dez metros. Voltei. Tranquei de novo. Fui a pé. Precisava de tempo para chorar tudo o que tinha para chorar e chegar em casa mais leve, para conseguir contar para a Natália. Cheguei mal conseguindo falar. "Amor, aconteceu isso. Acho que eu fali." Ela me olhou e disse que daríamos a volta por cima juntos. Era mais uma batalha. E nós demos.

Conseguimos ficar no apartamento por alguns meses. Depois acabou tudo, e fomos morar de favor com a minha sogra, Iara, que nos acolheu com muito amor e nos deu a estrutura para recomeçar. Não há recomeço sem alguém que abra a porta.

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Biopark

A virada empresarial aconteceu no Biopark. Em um programa eliminatório que reuniu centenas de empreendedores, fui um dos quinze selecionados. Ali eu me capacitei em um 360 de empresa: financeiro, jurídico, contábil e comercial. Não só como construir uma empresa, mas como mantê-la de pé. Foi lá que montei a minha nova empresa, e foi lá que, pela primeira vez, tivemos acesso a resultado de verdade.

Preciso dizer o nome de quem idealizou aquilo: Dr. Luiz. O Biopark existe porque ele decidiu que uma cidade do interior do Paraná podia formar gente capaz de competir com qualquer lugar do mundo. Eu sou uma das provas. A partir dali, se moldou quem eu sou hoje.

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Hoje

Hoje sou Engenheiro de Software e Arquiteto de Sistemas, full stack sênior. Participei de mais de seiscentos projetos, construindo, revisando ou auditando. Sou o cara que encontra a falha que ninguém encontra, porque passei a vida inteira olhando para o detalhe que os outros pulam. Com a bagagem que reuni, consigo pegar qualquer sistema, de qualquer tamanho, e dizer onde ele quebra e como deveria ter sido construído.

Sou head da Cravamos, um portal onde um humano e seus agentes de IA produzem informação com responsabilidade. Sou fundador da ELUCENIA, uma cadeia médica e científica global para acelerar a ciência, na mesma direção em que meu pai passou a vida. E construí um memorial para ele, para que a história de um médico que atendia de graça não dependesse só da memória de quem o conheceu.

Não conheci meu pai. Mas todo dia, quando escolho as pessoas antes do dinheiro, quando atendo quem não pode pagar, quando faço o detalhe direito mesmo quando ninguém vai olhar, eu converso com ele.

Meu pai

Pedro Moretti Guedes, 1935–2010

Médico, cirurgião e professor. Mais de quarenta anos atendendo o Campo Limpo, em São Paulo. Conhecido até hoje por atender de graça quem não podia pagar. Estou construindo um memorial com a história dele, as fotografias, os artigos e as homenagens dos pacientes.

Conhecer meu pai