Autodidata não quer dizer sozinho
Nunca terminei uma graduação, mas nunca aprendi sozinho. Como achar professores quando ninguém te designa um.
Me chamam de autodidata, e é verdade que nunca terminei uma graduação em nada ligado a software. Mas "autodidata" passa a imagem errada. Sugere uma pessoa sozinha num quarto com um notebook, absorvendo tudo da documentação. Não foi assim que aprendi, e pela minha experiência não é assim que ninguém aprende bem.
Aprendi com o Samuel, que tinha uma gráfica e me ensinou CorelDRAW e recorte de vinil quando eu tinha uns doze anos. Aprendi com o Val, que consertava eletrônicos e me mostrou como achar o defeito numa placa pensando por onde a corrente passa. Nenhum dos dois era engenheiro de software. Os dois me ensinaram coisas que uso toda semana. O engenheiro autodidata não é alguém que aprendeu sozinho. É alguém que precisou encontrar os próprios professores, porque ninguém designou nenhum.
O que um professor de fato te dá
O Samuel não me ensinou CorelDRAW. O software eu teria descoberto sozinho. O que ele me ensinou foi que o arquivo que vai para a plotter precisa estar exatamente certo, porque vinil não é de graça e um corte errado é dinheiro no chão. Ele me ensinou a conferir duas vezes antes de mandar. O Val me ensinou que não se troca componente a esmo até a coisa funcionar. Você mede, raciocina sobre o circuito, vai fechando o cerco, e então troca uma peça só. Isso é debugging. Eu ainda não conhecia a palavra.
O que um professor te dá não é informação. É um jeito de trabalhar, observado de perto, e corrigido na hora quando você erra. Documentação não te corrige. Tutorial não vê que você pulou uma etapa.
Como encontrar professores quando ninguém te designa um
Essa é a parte prática, porque a maioria de quem está lendo também não ganhou um mentor de presente. O que funcionou para mim:
- Peça para ficar olhando. Quase todo profissional bom deixa você sentar do lado se você for quieto e útil. Varra o chão, carregue as caixas, e preste atenção.
- Leve trabalho pronto, não perguntas. "Fiz isso, o que você mudaria" recebe resposta de verdade. "Por onde eu começo" recebe um dar de ombros.
- Escolha gente boa no ofício, não gente boa em falar sobre o ofício. O segundo tipo é mais fácil de achar e ensina menos.
- Fique tempo suficiente para ser corrigido. A primeira semana de qualquer aprendizado é cortesia. A correção começa quando confiam que você aguenta.
Revisar código é ser ensinado
Mais tarde, quando comecei a revisar e auditar sistemas para outras pessoas, percebi que continuava aprendendo do mesmo jeito. Toda base de código que abro foi escrita por alguém que tomou decisões que eu não tomaria, e em mais ou menos um terço das vezes a pessoa estava certa e eu errado. Esse terço é onde eu aprendo. Em mais de 600 projetos, isso soma uma educação que nenhum curso poderia me vender, porque nenhum curso viu tantas formas de um sistema ser construído e de falhar.
Se você é autodidata, o code review é a sua sala de aula. Leia os sistemas dos outros. Leia os que funcionam e os que quebraram. Pergunte por que a decisão foi tomada antes de decidir que ela estava errada.
O que eu devo
Não digo mais autodidata sem acrescentar os nomes. Aprendi numa gráfica, numa bancada de conserto, em obra, numa família de acolhimento com oito crianças onde você aprende rápido que ninguém vai fazer a sua parte por você. Aprendi com gente que não ganhou nada por me ensinar, a não ser o fato de que eu aparecia no dia seguinte.
Se você aprendeu desse jeito, encontre quem te ensinou e diga isso. E depois seja essa pessoa para alguém. Não um curso, não uma thread de conselhos. Sente do lado de alguém, olhe a pessoa trabalhar, e corrija quando ela pular uma etapa. É isso que autodidata quer dizer de verdade. Quer dizer que você foi ensinado por gente que não era paga para isso.