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Fé, família e uptime

O que coloco acima do trabalho, e como essas restrições tornaram meus sistemas mais confiáveis, não menos.

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Mantenho sistemas no ar para as pessoas, e tenho uma família e uma fé que importam mais para mim do que qualquer sistema. Por muito tempo tratei isso como vidas separadas, em que uma pagava pela outra. Não trato mais. Este texto é sobre como elas se conectam, em termos práticos, sem fingir que a conexão é arrumada.

Uptime é uma promessa a gente que você nunca vai conhecer

Quando um sistema que desenhei cai, alguém em algum lugar não consegue fazer algo que importa: pagar uma conta, marcar uma consulta, enviar um formulário no último dia. Nunca conheço essa pessoa. Uptime é uma promessa a estranhos.

Meu pai foi médico no Campo Limpo por mais de quarenta anos e atendia de graça quem não podia pagar. Eu o conheci uma vez. Mas esse fato sobre ele, o de que a promessa era a gente que não podia dar nada em troca, moldou como penso em confiabilidade. O sistema tem que funcionar para o usuário que não tem a quem recorrer, nem contrato de suporte, nem canal para reclamar. Isso não é regra de negócio. É algo mais perto de uma regra moral, e minha fé é de onde ela vem.

A família define o formato do trabalho

Natália e eu construímos uma vida numa cidade pequena do Paraná, e o formato do meu dia de trabalho é definido por essa vida, não o contrário. Não faço plantão heroico. Não pego o contrato que exige estar disponível a qualquer hora, porque o custo disso cai em quem eu amo, não no cliente.

Isso me tornou um engenheiro melhor, não pior. Se não posso ser acordado às três da manhã, o sistema tem que ser desenhado para não precisar de mim às três da manhã. Isso significa alertas acionáveis, runbooks que outra pessoa consegue seguir, modos de falha desenhados de antemão, e uma preferência forte por tecnologia entediante que falha de formas conhecidas. A restrição forçou a disciplina. A família é, num sentido bem real, o motivo de meus sistemas serem confiáveis.

A fé muda o que faço nos dias ruins

Já escrevi sobre 2020, quando perdi todos os contratos em poucas semanas. O que a fé fez por mim naquele ano não foi dramático. Me deu um motivo para dar o próximo passo pequeno em dias em que o resultado não estava visível. E isso é, exatamente, o que você precisa no segundo dia de um incidente, quando a correção de ontem não segurou e o cliente está perdendo a paciência.

A tentação num dia ruim é fazer deploy em pânico, mudar várias coisas de uma vez, fazer o número se mexer. A fé, para mim, é o que me deixa calmo o bastante para mudar uma coisa, medir, e mudar a próxima. Não estou dizendo que você precisa de fé para fazer isso. Estou dizendo que é de lá que a minha vem.

A ordem importa

Mantenho isso numa ordem: fé, família, trabalho. Não porque trabalho não importe, mas porque quando a ordem se inverte, tudo degrada. O engenheiro cuja identidade é o sistema vai se esgotar ou virar alguém com quem é impossível trabalhar. O que sabe que o sistema é o terceiro da lista consegue se afastar à noite, e volta na manhã seguinte com a perspectiva necessária para ver a falha que estava invisível à meia-noite.

O que dá para usar

Seja o que for que você coloca acima do trabalho, coloque acima do trabalho explicitamente, e deixe as restrições que isso cria moldarem a engenharia. Se você não pode ser acordado, desenhe para não ser acordado. Se você atende gente que não pode pagar, desenhe para o usuário que não tem a quem recorrer. Se você precisa de calma no dia ruim, descubra de onde vem a sua calma e vá até lá antes do dia ruim chegar.

Os sistemas ficam melhores por isso. Os meus ficaram. E o projeto de pesquisa que estou construindo agora, uma cadeia médica e científica global para acelerar a descoberta, vem da mesma ordem: é uma tentativa de ser útil a gente que nunca vou conhecer, como meu pai foi para os pacientes dele no Campo Limpo, com as únicas ferramentas que tenho.