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Construindo sistemas de nível mundial de uma cidade pequena do Paraná

Lugar importa. O que você precisa fazer diferente quando nunca está na sala.

careerlife

Me mudei para Toledo, no oeste do Paraná, em 2018. Se você nunca ouviu falar, é esse o ponto. É uma cidade pequena cercada de lavoura, longe dos bairros de São Paulo onde cresci e mais longe ainda de qualquer lugar onde as pessoas imaginam software sendo construído.

Daqui, desenhei e auditei sistemas para clientes do mundo inteiro. Este não é um texto sobre como lugar não importa. Lugar importa. É um texto sobre o que você precisa fazer diferente quando não está na sala.

O trabalho tem que falar sem você

Numa cidade grande dá para ser um engenheiro mediano com uma boa rede de contatos. Alguém te indica, você consegue a reunião, a reunião vai bem. De uma cidade pequena, ninguém te indica. A primeira coisa que um cliente em potencial vê é o trabalho, e o trabalho precisa se sustentar sozinho.

Isso me empurrou para uma obsessão pelos artefatos. O relatório de auditoria precisa ser legível por alguém que nunca falou comigo. O documento de arquitetura precisa sobreviver a ser encaminhado três vezes. O code review precisa explicar não só o que está errado, mas por que importa e o que fazer no lugar. Ao longo de mais de 600 projetos, isso deixou de ser tática de sobrevivência e virou aquilo pelo qual sou conhecido. Dizem que encontro falhas que ninguém mais encontra. Parte disso é habilidade. Parte é que, por anos, não pude contar com simpatia, então contei com evidência.

Assíncrono por padrão, não por preferência

Quando seus clientes estão em três fusos e sua cidade não tem meetup de tecnologia, você aprende a trabalhar de forma assíncrona ou não trabalha. Escrevo mais do que falo. Decisões vão para documentos com data. Perguntas são agrupadas para que uma mensagem cubra um dia, não doze.

Isso acabou se revelando prática melhor de engenharia, não só um meio-termo. Decisão escrita pode ser auditada depois. Conversa não pode. Quando um sistema quebra dois anos depois de eu ter desenhado, o raciocínio ainda está lá, e o time que herdou consegue ler por que a fronteira foi traçada onde foi.

As distrações sumiram, e o ruído também

Existe um custo real em estar longe do centro. Você perde a conversa de corredor em que alguém menciona a ferramenta que teria economizado um mês. Precisa se esforçar mais para ficar atualizado. Leio mais do que leria se pudesse simplesmente perguntar a um amigo no café.

Mas existe um ganho real também, e eu não esperava por ele. O ruído sumiu. A pressão para adotar o framework que todo mundo na cidade está adotando neste trimestre não chega aqui. Escolho Next.js e TypeScript porque se sustentaram ao longo de muitos projetos, não porque um meetup disse. Distância do ciclo de hype é vantagem técnica, se você usar o silêncio para pensar.

O que eu diria a um engenheiro de cidade pequena

Você não está em desvantagem no trabalho. Está em desvantagem na visibilidade do trabalho. Então torne o trabalho visível de propósito. Escreva o que fez e por quê. Publique as decisões que puder publicar. Responda com clareza e por escrito, para que possam te encaminhar. Seja o engenheiro cujos documentos são melhores do que as reuniões de todo mundo.

E não se mude para resolver um problema que artefatos melhores resolveriam. Construí uma carreira, um estúdio e agora um projeto de pesquisa de uma cidade que a maioria das pessoas não sabe apontar no mapa. A lavoura continua do lado de fora da janela. Os sistemas rodam em data centers em outros continentes. Essa combinação não é limitação. É só o formato do trabalho hoje.